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Mater
por Augusto dos Anjos

Como a crisálida emergindo do ovo

Para que o campo flórido a concentre,

Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo

Ser, entre dores, te emergiu do ventre!


E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,

No lábio róseo a grande teta farta

- Fecunda fonte desse mesmo leite

Que amamentou os éfebos de Esparta -


Com que avidez ele essa fonte suga!

Ninguém mais com a Beleza está de acordo,

Do que essa pequenina sanguessuga,

Bebendo a vida no teu seio gordo!


Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,

Essas humanas coisas pequeninas

A um biscuit de quilate muito raro

Exposto ai, á amostra, nas vitrinas.


Mas o ramo fragílimo e venusto

Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,

Há de crescer, há de tornar-se arbusto

E álamo altivo de ramagem grossa.


Clara, a atmosfera se encherá de aromas,

O Sol virá das épocas sadias.

E o antigo leão, que te esgotou as pomas,

Há de beijar-te as mãos todos os dias!


Quando chegar depois tua velhice

Batida pelos bárbaros invernos,

Relembrarás chorando o que eu te disse,

À sombra dos sicômoros eternos!


(Eu, 49)

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