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Através do Brasil (XVI-Uma história)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

- Pois vou contar-lhes a minha história, e hão de ver que também é triste como a sua.

“Também não tenho pai, nem mãe. Meu pai, que era vaqueiro, numa fazenda perto de Cabrobó, morreu, caindo do cavalo que montava, quando saltava um barranco. Minha mãe morreu pouco depois, de bexigas. Eu tinha então ano e meio de idade, e fui recolhido à casa de meu padrinho que era o sacristão da igreja de Cabrobó. Esse homem, João Inácio, era casado, mas não tinha filhos: recebeu-me como a um verdadeiro filho, e minha madrinha foi para mim uma verdadeira mãe dedicada, extremosa. Assim que completei sete anos, aprendi a ler, a escrever e a contar: e meu padrinho, querendo fazer de mim um homem, quis que eu começasse a estudar um “ofício”. O ofício escolhido foi o de alfaiate.

“Logo nos primeiros dias, desgostei-me dessa profissão. Não me agradava ficar sentado durante todo o dia, com a agulha na mão, como uma mulher. O meu desejo era poder andar, agitar-me, mover-me, - empregar-me em qualquer trabalho que me permitisse sair e bracejar. Além disso, antipatizei logo com o mestre. Era um homem mau, teimoso, birrento. Dava-me tarefas enormes; e, vendo que o que mais me aborrecia era o trabalho de casear calças, justamente me dava esse trabalho.

“Perto da casa do alfaiate, havia uma oficina de ferreiro. Eu, sempre que podia fugir, ia até lá, e ficava embevecido contemplando aquele trabalho forte e movimentado, que me encantava. Minha madrinha, querendo satisfazer a minha aspiração, pediu ao marido que me deixasse mudar de aprendizado. Ele consentiu, e eu fiquei contentíssimo. Foi este o tempo mais feliz da minha vida. O trabalho agradava-me, e empenhei-me nele com tanta diligência, que ao cabo de um ano já era um bom limador.

“Um dos serviços de que mais gostava era o de fazer carvão. De oito em oito dias, íamos, dois aprendizes e um oficial, preparar as provisões de combustível para a forja. Saíamos de madrugada, em direção ao mato, levando foices e machados. Cortávamos a lenha, fazíamos a coivara, e, à noite, depois de um dia de rude trabalho, voltávamos, com dois animais carregados de carvão.

“Mas a minha felicidade não durou muito. Meu padrinho morreu; e, onze meses depois, minha madrinha praticou a loucura de casar com um malandro, que só cobiçava a casa e o dinheiro que o defunto legara à viuva. Era um vadio, e um bêbedo. Preguiçoso e grosseiro, abominava o trabalho e passava o dia inteiro na venda, bebendo e palestrando. Um mês depois de casado, já maltratava a minha pobre madrinha. Essa triste situação foi piorando de dia em dia, - e eu, que já tinha os meus quinze anos de idade, fui obrigado a intervir, para defender a santa mulher que me servira de mãe, e a quem eu estimava tanto como se fosse seu legítimo filho.

“Era um Domingo, e almoçávamos. O miserável passara toda a noite fora de casa, e entrara ao amanhecer, de mau humor, procurando pretextos para uma rixa. Começou a “rezingar”, a criticar a comida, a achar que tudo estava mau. Passou a dirigir as mais pesadas injúrias à mulher; depois de insultá-la muito, arremessou-lhe um prato ao rosto, e avançou para ela, com o punho fechado, para espancá-la.

“ Não me pude conter mais, e levantei-me, revoltado, protestando contra aquela brutalidade. Ele estacou, como uma fera, espantando pela minha ousadia,. Olhou-me demoradamente, com os olhos vermelho e maus, e gritou, com rancor:

- Sai de minha frente!

“E levantou a mão. Senti-me tomado de cólera, e respondi:

- Não saio! Não saio, e não admito que o senhor espanque essa mulher! O senhor é um miserável e um covarde! Só faz isso, porque vê que ela é uma mulher, e que eu sou uma criança!

“Ele atirou-se contra mim. Felizmente, vizinhos, que ouviram a altercação, intervieram. O malvado vociferou ameaças, e saiu.

“Não querendo suportar essa vida, minha madrinha separou-se do miserável, e foi morar em casa de uma irmã, levando-me consigo, Nesse tempo, já eu ganhava algum dinheiro, e dava-o à minha madrinha. Mas o marido não me perdoava, e queria vingar-se de mim. Obteve do juiz ser nomeado meu tutor, e um belo dia, apresentou-se na oficina, para se apoderar de mim ...”

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