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Através do Brasil (XV-O sertão)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

- Pronto! Aqui está a água! - disse Juvêncio, entrando, lépido e alegre.

Trazia o rosto, as mãos e os pés lavados... Vendo Carlos e Alfredo naquela atitude desanimada e lacrimosa, condoeu-se deles:

- Não chorem! Vamos comer alguma cousa... Depois, hei de contar-lhes a história da minha vida, e vosmecês hão de ver que eu também tenho muitas razões para ser triste, apesar deste meu ar alegre... Vamos comer.

Tirou da trouxa um naco de carne de sol, um peixe assado, e um pouco de farinha. Assou a carne ao calor da fogueira, aqueceu o peixe, e fez a distribuição. A refeição foi completada com os biscoutos que os meninos traziam. Carlos e Alfredo, sentados no chão, e o rapaz, de cócoras, ao pé do fogo, comeram com apetite. Enquanto comiam, conversavam:

- Ninguém no mundo - disse Juvêncio - das pessoas que conhecem vosmecês, é capaz de imaginar que vosmecês estejam no sítio em que estão... Quem imaginaria que haviam de andar por este sertão, a pé, comendo no chão, bebendo água em cabaça, dormindo assim sem comodidade, num ermo como este, dentro de um rancho tão pobre? Tudo, no mundo, é para o bem da gente... Vosmecês ficam conhecendo a sua terra... Eu, por mim, gosto muito destas cousas, e já não estranho os incômodos das viagens. Era capaz de ir de um polo ao outro como dizia o meu mestre!

- Ui! - gritou Alfredo.

Ouviu-se de repente um ruído rápido e surdo e viu-se um vulto atravessar o espaço, cortando o ar, e sumindo-se pela porta do rancho. Dir-se-ia, pelo tamanho, uma pomba-rola.

- É um morcego que estava dormindo aí! - disse Juvêncio.

- Um morcego! - exclamou Alfredo - Dizem que esse bicho chupa o sangue da gente...

- É muito raro. E as feridas que resultam da sua picada nunca são perigosas: somente nas crianças recém-nascidas é que podem apresentar alguma gravidade. Os morcegos atacam de preferência os animais.

- E os animais não se defendem?

- Não, porque são atacados durante o sono; e, além disso, quase não sentem a dentada, porque o morcego, quando morde, abana as asas e faz com que a língua sobre a pele, uma cócega ligeira, que disfarça a dor.

- Então o morcego tem dentes, para morder?

- Tem. O morcego voa, mas não é pássaro. É um animal como o rato, com o corpo coberto de pêlos; tem focinho e cauda, boca e dentes.

- Como é que você sabe tudo isso? - insistiu Alfredo, com a sua eterna curiosidade.

- Porque já vi! Vi morto, um dia, um morcego, e examinei-o bem.

A conversa continuou. Juvêncio começou a falar das cousas e das gentes do sertão, dos animais, das pessoas que nele vivem. Contou os costumes dos sertanejos, que vivem à custa das roças que cultivam e do gado que criam:

- A terra é muito rica, e nunca nega o sustento a quem sabe tratá-la: dá o milho, o feijão, a mandioca, o algodão, o fumo, a cana; e, além de alimentar os homens, ainda alimenta os bois, os carneiros, as cabras, os cavalos que, bem tratados, são para o criador uma verdadeira fortuna. No tempo das chuvas, há uma fartura geral: o gado engorda, as vacas dão muito leite, com que se fabricam queijos e requeijões. Mas no verão, na época das secas, quando se passam comumente seis a oito meses sem um pingo de chuva, os campos mirram, as plantações morrem, os pastos ficam torrados, os rios e as fontes secam, o gado em grande parte morre de fome e sede, e até os homens, para não morrer, andam, às vezes léguas e léguas, em busca de água. Quando a seca dura muito, há muita gente que morre, quando não emigra em tempo para outros lugares menos assolados pelo rigor do verão. Apesar de tudo isso, a gente toda, que aqui nasce, ama loucamente o seu sertão, e suporta com paciência e coragem esses reveses.

- É uma boa gente, não é, Juvêncio?

- É uma gente muito boa, muito honrada. O sertanejo é sempre sério e fiel. Pode ser desconfiado, mas gosta de praticar o bem. Toda a gente do sertão é hospitaleira e caridosa. Eu sei o que estou dizendo, porque já tenho recebido muitos benefícios de todo este povo.

- É verdade! - exclamou Alfredo - você de onde é, Juvêncio? Cumpra a sua promessa, e conte-nos a sua história!

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