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Através do Brasil (XLVI-O moribundo)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

Ficando só com o mais velho dos irmãos, o enfermo ainda pediu um pouco de água, e contou dificilmente a sua história, parando de frase em frase.

- Ah! Meu menino! Estou vendo que não tenho muitos minutos de vida! Eu ... já vinha... tão doente!

- Para onde ia?

- Ia a Vila Nova consultar um médico. Saí de Jaguarí à noite, porque tinha confiança no cavalo, e conheço bem estes caminhos. Mas, não sei como, rolei da sela... creio que tive uma vertigem... e vim parar aqui... Ai!... e a minha gente, que não sabe o que me aconteceu!

- Sossegue! - disse Carlos - o meu companheiro já foi prevenir sua família, e é impossível que ela não mande recursos para socorrê-lo!

- Manda... manda, com certeza! - falou o velho, com a voz cada vez mais cansada - no meu sítio... há bastantes trabalhadores... nós somos remediados... Mas... creio que os socorros... vão chegar tarde...

- Não! Sossegue! Não fale tanto assim, que se cansa inutilmente... O senhor está tão fraco!

- É que perdi muito sangue... devo ter... as costelas partidas! Acontecer uma desgraça como esta... a um homem velho... e doente, como eu!...

- Não fale mais, que isso lhe faz mal! - pediu Carlos.

- Não! - insistiu o enfermo - sei que vou morrer... e quero dizer-lhe uma cousa...

- Diga.

- Olhe! Meta a mão... aqui, no bolso direito das minhas calças...

Carlos obedeceu, e encontrou um maço de dinheiro.

- Guarde... esse dinheiro, meu menino... Se eu morrer, antes de chegarem os socorros, pode... ficar com ele... É seu!

- Não diga isso! - acudiu o menino. - O senhor não há de morrer. Guardarei o seu dinheiro, para entregá-lo ao senhor, quando chegarmos à vila, ou à sua família.

- Não! Não!... é seu!... guarde-o... - insistia o velho.

- Pois sim! Pois sim! - disse Carlos, para não o contrariar... - Mas sossegue! Não fale mais! Sossegue!

- O meu sossego... é a cova! - gemeu o homem. - Também, nesta idade, já é... tempo... de morrer... trabalhei muito, meu menino! Felizmente... deixo a minha gente amparada, e filhos e netos já criados... e encaminhados... na vida... É tempo de...

A voz ia diminuindo mais e mais a ponto de parecer penas um sopro. Carlos passou o braço por baixo da cabeça do ferido, e levantou-a, derramando sobre ela mais um pouco de água. O velho fechou os olhos, e não falou mais.

Carlos achava que o tempo custava extraordinariamente a passar. E os companheiros que não chegavam...

Felizmente, ouviu-se um tropel de cavalos.

Era o socorro esperado que chegava.

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