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Através do Brasil (XLV-Num valo)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

O dia seguinte ao da leitura dos jornais, passou-se sem novidade. À tarde, apareceu na oficina o aprendiz que tinha enfermado; vinha bom, e pronto para recomeçar a trabalhar no outro dia. Carlos chegou a estimar a ocorrência, porque todo o seu desejo, agora, era partir o mais depressa possível para a Bahia. O ferreiro, que era bom homem, deu a Juvêncio dois mil réis, com que este, antes de se deitar, comprou alguns víveres, carne e pão, para a viagem. Dormiram e ao romper da manhã, puseram-se a caminho. Os meninos carregavam a matalotagem, e Juvêncio uma cabaça cheia de água.

Enquanto marchavam, iam conversando sobre a grande novidade que os preocupava. Quem seria aquele negociante da Bahia? - que interesse teria ele em conhecer o paradeiro dos dois? Qual seria o intuito do anúncio?

- Só pode ser bom! - disse Juvêncio. - Os senhores não têm parentes na Bahia?

- Não. É verdade que meu pai devia ter por lá alguns conhecidos... - disse Carlos. - Os únicos parentes que temos estão no Rio Grande do Sul.

- Bom. Mas esses parentes já devem ter recebido a notícia da morte de seu pai; talvez o negociante da Bahia seja amigo deles.

- Talvez. Em todo o caso, tiraremos a coisa a limpo, quando lá chegarmos.

Alfredo que ia um pouco adiante, parou de súbito, e inclinou a cabeça, como prestando atenção a um ruído.

- Que é? - perguntou-lhe o irmão.

- Psiu! - recomendou o menino.

E continuou a prestar atenção, voltando-se ora para um, ora para outro lado.

Os outros aproximaram-se.

- O que é? - repetiu Carlos.

- Estou ouvindo qualquer cousa como um gemido... Ouçam...

Carlos e Juvêncio afiaram o ouvido. Havia, de fato, alguma coisa. Era um como lamento longínquo...

- É voz humana! - murmurou Carlos.

- E vem dali, de dentro do mato, à esquerda... - acrescentou Juvêncio.

Seguiram, nessa direção. Os gemidos acentuavam-se. Chegaram a um valo, cavado no mato, perto do caminho; reconheceram que era efetivamente dali que partia a voz. Debruçaram-se, e viram lá em baixo um vulto estirado sobre os galhos secos. Era um velho.

- Está morto, coitado! - exclamou Alfredo.

- Qual morto! - disse Juvêncio - vosmecê já ouviu um morto gemer? Está vivo, e devemos socorrê-lo!

- Está claro! - afirmaram ao mesmo tempo os dois irmãos.

- O que eu não sei é como havemos de tirá-lo dali! Vejamos se ele é capaz de nos ouvir.

E falou alto:

- Que é isso, camarada? Que tem?

- Socorro! Acudam-me! - gemeu a voz lá em baixo.

Era uma voz tão fraca, tão abafada, que parecia a de um moribundo.

- Vamos tratar de ajudá-lo! Espere um pouco!

Os três rapazes, debruçados sobre o valo, viram então mover-se vagarosamente, entre gemidos, a face do velho. As suas longas barbas brancas estavam ensangüentadas...

Não longe do lugar, ouviu-se logo um relincho prolongado. Entre as árvores, viram os rapazes um cavalo, que pastava tranqüilamente.

- Que mistério será este? - disse Juvêncio.

- Água... tenho... sede... - sussurrou a voz do velho...

- Vou descer! - resolveu o sertanejo.

Apertou bem a corda que lhe atava às costas a cabaça, e deixou cair, com cautela, pelo declive, agarrando-se às plantas, apoiando os pés nos troncos secos. Em poucos segundos estava perto do homem e reconheceu que ele estava gravemente ferido. Levantou-lhe a cabeça, encostou-lhe à boca o gargalo da cabaça, e quando o viu saciado, refrescou-lhe a cabeça e a face com um pouco de água. O velho, reanimado, pôde então, em frases entrecortadas, explicar mais ou menos o que lhe acontecera.

Caíra do cavalo, rolara ali, e sentia bem que ia morrer...

- Quem é o senhor? - perguntou Juvêncio.

- Chamo-me Ricardo. Moro aqui perto, na vila de Jaguarí... Tenho lá a minha família...

- O cavalo que está lá em cima é seu?

- Deve... ser...

- Bem! Tenha paciência, que vou num instante à vila buscar socorros...

e gritou para cima:

- Seu Carlos!

- Hem!

- Veja se pode descer! Desça com cuidado! Preciso do senhor aqui...

- De mim também? - perguntou Alfredo.

- Não! Espere por mim...

Carlos desceu, sem grande dificuldade. Quando o viu ao seu lado, o rapaz avisou-o do que ia fazer: montaria o cavalo, e iria num momento à vila, enquanto ele, Carlos, ficaria ali, tomando conta do enfermo.

- E Alfredo?

- Vai comigo. Levo-o na garupa.

- Pois sim! - aprovou Carlos - mas não se demore!

- É um pulo!

E agarrando-se de novo às plantas e às pedras o sertanejo galgou a borda do valo.

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