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Através do Brasil/XLIII

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Através do Brasil (XLIII-Uma oficina)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

No sítio de Tibúrcio, separaram-se os três de Bento Função, que lhes entregou a prometida carta para o compadre Martinho. Partiram a cavalo. Mas em Jaguarí uma nova decepção os esperava: Martinho estava viajando havia dois dias, e não devia voltar senão daí a mais de uma semana. E não havia quem o representasse e pudesse atender aos rapazes...

- Que fazer? - perguntou Juvêncio. - Voltar?

- Isso não! - respondeu logo Carlos. - Daqui, só para diante, e haja o que houver!

Deixaram os cavalos na casa de Martinho, e começaram a andar, tristes e apreensivos.

Juvêncio, que, com a sua previdência, não deixava de pensar em tudo, refletia. De repente, falou:

- Se eu arranjasse aqui o meio de ganhar qualquer dinheiro, trabalhando, estaríamos salvos. Poderíamos ficar uns dois ou três dias; e não seria inútil esse descanso, depois dos trabalhos e das comoções que tivemos...

- Arranjar trabalho? Aí está o que nem sempre é fácil... - disse Carlos.

Nesse momento, passavam diante de uma oficina de ferreiro. Lá dentro era grande a atividade. Via-se flamejar o fogo, e ouviam-se choques violentos e repetidos de metais. Juvêncio murmurou:

- Tenho uma idéia... Vou perguntar ali se precisam de um ajudante. Se disserem que não, paciência!

Entraram. O ferreiro, batendo com o malho uma peça de ferro incandescente, que o aprendiz apoiava sobre a bigorna com uma tenaz, não pareceu dar pela entrada dos três viajantes.

- Desculpe-me, se o interrompo - disse Juvêncio, - o senhor não terá por agora necessidade de um ajudante?

O ferreiro interrompeu o trabalho, passou o martelo sobre o cepo da bigorna, e disse:

- Se tenho! Justamente adoeceu hoje o rapaz que tratava do fole, e estou atrapalhado com um trabalho urgente. Você conhece alguém que me possa servir, rapaz?

- Conheço, sim, senhor!

- E quem é?

- Sou eu.

O homem examinou-o com atenção, e não pareceu ficar muito satisfeito com a sua pouca idade:

- Você?

- Sim, Senhor! Não sou muito desenvolvido, mas sou forte, e trabalho bem. Além disso, conheço esse trabalho, porque já fui aprendiz de ferreiro.

- Homem! - disse o ferreiro, hesitando - você nessa idade não pode prestar grandes serviços... Depois, vocês todos, quando se querem empregar, pedem tanto dinheiro...

- Eu não! - acudiu Juvêncio - olhe! Não faço questão de salário. Deixe que durmamos aqui, eu e os meus companheiros; comeremos um pouco do que houver, e, se o senhor, no fim da tarefa, ficar satisfeito comigo, poderá dar-me o que quiser...

- Lá quanto à dormida e comida, estamos entendidos. Não faltam por aí cantos onde vocês se deitem; e comida, graças a Deus, nunca faltou nesta casa... Vá lá! Aceito os seus serviços; e, se você for trabalhador quanto é “despachado”, sempre há de ganhar algum cobre... Mas é bom ficar bem entendido que só o emprego enquanto o outro rapaz estiver doente.

- Não há dúvida! Nós temos necessidade de continuar a nossa viagem, e não tencionamos demorar-nos...

Juvêncio foi logo pôr o avental, e começou a trabalhar, com grande divertimento de Alfredo, que achava em tudo aquilo mais uma novidade para sua distração.

O rapaz sertanejo tomou conta do fogo da forja, e do grande fole, que era movido por uma grossa corda; ora deitava carvão no braseiro, ora puxava a corda: o fole abria-se e fechava-se, expelindo ar para o montão de brasas, e ativando as chamas, a que o ferreiro expunha as peças de ferro, até que ficassem incandescentes e prontas para o trabalho.

Carlos, deixando os dois companheiros na oficina, foi dar uma volta pela vila. Alfredo não quis sair; preferiu ficar ali, admirando a labuta dos ferreiros.

O patrão, ajudado pelo aprendiz, trazia as peças ao fogo, e ia depois de batê-las sobre a bigorna. Um outro operário, nos fundos da oficina, estava ferrando um cavalo, pregando-lhe nos cascos as ferraduras novas, que ali tinham sido feitas. Um terceiro, com o auxílio de uma grossa lima de aço, estava polindo eixos de carroças.

Alfredo corria, encantado, toda a oficina, examinando os objetos que se enfileiravam, encostados à parede: instrumentos, eixos de carros, montes de pregos, argolas de ferro, grades. Havia também chaves e fechaduras, porque a oficina era, ao mesmo tempo, uma oficina de ferreiro e de serralheiro. Alfredo sentia apenas que Juvêncio não pudesse prestar-lhe atenção, para lhe explicar a utilidade de todas aquelas coisas...

Mas o sertanejo não tinha mãos a medir: trabalhava deveras. A forja chamejava. O fole movia-se, com um ronco surdo. E enchia-se a oficina de um barulho metálico e estridente, que ia ecoar longe, animando todo o lugarejo...

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