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Através do Brasil/XLI

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Através do Brasil (XLI-Livre!)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

Era já noite fechada; mas a lua ainda não despontara. Havia, apenas a claridade dos milhões das estrelas, em um céu límpido e profundo. Juvêncio pôde divisar bem o vulto dos dois morros pelados, ao outro lado do caminho; e, sem demora, orientou-se, tomando a direção do Angico. Vestiu as calças, que ainda trazia à cintura, e partiu. Ia trêmulo, de susto e de fadiga, mas era todo atenção; não caminhava, voava.

Antes de meia hora de marcha, ouviu, atrás de si, um tropel; parou e agachou-se na sombra de uns arbustos espessos, à beira da estrada. Era um cavaleiro, a galope curto, e seguido de perto por um homem a pé, arquejante, a correr para acompanhar a montada. Falavam, mas Juvêncio não percebeu o que diziam. Passaram; e o rapaz, por precaução, deixou-se ficar ainda um pouco ali, a ver se vinha mais alguém. Ao cabo de uns dez minutos sussurraram vozes, que vinham do mesmo lado; Juvêncio desceu o rosto até o chão, olhou na direção das vozes, e pôde lobrigar, assim, dois vultos de homens. Aguçou então o ouvido:

- “...dizer ao senhor coronel... amanhã... Zé Pedro...” - diziam as vozes, que se aproximavam, tornando-se de todo distintas:

- “Zé Pedro e Barroso foram para os lados do Joá, para tirar indagações; e nós vamos para o Angico, porque sou de lá; minha mãe mora lá, e tenho lá o meu padrinho, o Bento Função. Se o ladrãozinho partiu para ali, nós o apanharemos. Basta que ele passe por lá, para que se tenha notícia...”

Juvêncio compreendeu que era dele que falavam os homens; e apurou mais o ouvido, arrastando-se, agachado, por entre as moitas, para apanhar mais alguma cousa:

- “Daqui a duas horas estaremos no arraial; iremos à casa de minha mãe, e bem cedo teremos notícias”.

Então, Juvêncio não quis ouvir mais; deixou que os dois homens tomassem a dianteira, e seguiu-os a uma certa distância, avistando-os de longe em longe. Chegado ao arraial, viu que seguiam na direção da venda, e tomou para a casa das lavadeiras, a ver se estas lhe poderiam dar notícias de Alfredo e de Carlos.

Bateu, e foram grandes a surpresa e o espanto de todos, quando o viram entrar, ofegante, pálido.

- Dá-lhe um pouquinho de água! - acudiu o dono da casa.

E era preciso: Juvêncio estava quase a desmaiar: fraqueza, susto, alegria, cansaço, dores... Passou o pasmo do primeiro momento, e ele contou a história toda; terminou, repetindo o que ouvira aos dois sujeitos: que viriam procurá-lo no Angico.

- É o Tomás, da comadre Josefa! - exclamou o dono da casa. - Ah! Então, nada há; tudo arranja-se; o rapaz é meu afilhado de batismo: eu sou o Bento Função; você não sabia... Bem, vamos dormir, vamos dormir... Maria das Dores! Vai preparar-lhe uma rede!

- E não tem fome? - interveio a velha.

- Não; só tenho cansaço; estou caindo...

- Bem, vá dormir!

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