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Através do Brasil/LXIX

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Através do Brasil (LXIX-São Paulo)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

Jantaram em Taubaté. Era noite, quando o trem parou na Estação do Norte, na capital paulista.

Rogério já dissera aos companheiros que só passariam em São Paulo aquela noite e a manhã do dia seguinte, até às nove horas: tomariam o trem para Santos, onde almoçariam, e depois embarcariam para o sul, porque o paquete devia sair às três horas.

Da Estação do Norte até o centro da cidade, transportou-os um bonde elétrico.

- Este bairro paulista - explicava Rogério, logo ao mover-se o bonde, - chama-se “o Brás”: é populosíssimo, e quase exclusivamente habitado por italianos; aqui residem, em grande parte, operários. Vejam que multidão, que vida! É quase toda italiana a colonização de São Paulo. É uma raça boa, inteligente, dotada de vivo gênio de iniciativa. Os italianos têm feito muito pelo progresso do Estado.

Chegando ao centro urbano, Rogério tomou conta de dois quartos, num hotel; depositadas as bagagens, saíram os três.

- Reparem bem no hotel - recomendou Rogério - tomem nota da rua, e do número da casa: é indispensável isto, quando a gente habita provisoriamente uma cidade desconhecida. Apesar da hora adiantada, ainda devo hoje tratar de negócios; mas vamos ao “triângulo”. O “triângulo” é o coração da cidade de São Paulo: uma parte urbana limitada por três ruas, muito animadas, a Direita, a de São Bento, e a Quinze de Novembro.

As ruas, como as do Rio de Janeiro, regurgitavam de povo; as lâmpadas elétricas jorravam luz ofuscante; esplendiam as fachadas dos teatros e dos cinematógrafos, e os mostruários das luxuosas lojas de jóias, de modas, de variados artigos. Dos cafés, das confeitarias, das cervejarias saía o rumor das músicas, das vozes, dos risos. Cruzavam-se os bondes, as carruagens atreladas, os automóveis. Pequenos vendedores apregoavam numa algazarra os jornais.

Entraram em um botequim. Rogério tomou café, e partiu, dizendo aos meninos que o esperassem ali, ou voltassem ao hotel, se não tivessem medo de perder-se...

- Qual! Perder-nos! - tornou Alfredo, muito senhor de si. - Prestei toda a tenção ao caminho!

- Sim! Sim! - disse Carlos, rindo. - Já sei que és um grande andarilho, um herói! - Mas já não te lembras que te perdeste na rua do Ouvidor...

Ficaram ali os dois, a princípio muito entretidos, a contemplar o movimento da casa e da rua. Mas fazia frio, o frio penetrante de São Paulo, e Alfredo, apesar do sobretudo que trazia, começou a tremer, e a pedir ao irmão que se fossem embora. Carlos, por sua vez, passada a primeira impressão de novidade, o que sentia agora era um absoluto isolamento; e com isto lhe veio a saudade desesperadora, e com a saudade aquela mesma idéia que já uma vez tivera: “E se o pai não tivesse morrido?...” Desta vez a idéia voltava mais insistente ainda, e Carlos entrou a examinar as próprias dúvidas. Sim! Sentia dúvidas, isto é: não podia ter certeza; e esse pensamento, se o consolava um pouco, ao mesmo tempo lhe trazia uma certa angústia. Era uma vaga esperança que ansiosamente o atormentava...

Quisera poder voltar atrás, correr de novo aquelas paragens do norte, e trazer de lá a verdade clara... “Mas não! - continuava a refletir, devorado de amargura e saudade - ele morreu!... nunca mais, nunca mais, nunca mais o havemos de ver!...”

Alfredo queixava-se do frio forte, e Carlos resolveu entrar.

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