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Através do Brasil (LXII-Na rua do Ouvidor)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim

A Avenida Central, deslumbrou os dois meninos.

A grande artéria urbana, com quase dois quilômetros de comprimento, e ladeada de magníficos prédios, parecia-lhes uma coisa ideal, uma fantasia, um sonho. E Carlos pensava, ao contemplar tantos palácios, tantas luzes, tanta beleza, na singularidade das aventuras que lhes aconteciam havia pouco tempo, e no contraste entre os deslumbramentos da cidade civilizada e a simplicidade dos rudes sertões por onde tinham andado perdidos...

Alfredo abria a boca, espantado; e chegou a pensar que o estavam enganando, quando lhe disseram que, para construir a Avenida, fora preciso demolir quinhentos e cinqüenta prédios da cidade!

Um outro ponto do Rio de Janeiro, que os interessou vivamente, foi a rua do Ouvidor. Por toda a parte tinham ouvido falar dela, e ambos tinham uma grande vontade de conhecê-la.

Em certa altura, Carlos, atônito, lançou um olhar para a outra extremidade da rua, e estremeceu: a multidão, que via diante de si, fez-lhe medo. Em outros lugares, já havia visto grandes aglomerações, em procissões, festas; mas era uma gente que não se parecia com aquele turbilhão de pessoas, a agitar-se em todos os sentidos, acotovelando-se, todas apressadas, indiferentes umas às outras, num movimento contínuo. Parecia-lhe impossível atravessar aquele mundo, onde as pessoas se espremiam e empurravam; parecia-lhe que o iam esmagar...

Então, já estavam na parte central da rua. O Dr. Caldas, ao mesmo tempo que ia indicando as casas mais importantes, e os homens mais em voga, cumprimentava a um e outro, pedia notícias, conversava com os amigos que encontrava, curvava-se em saudações para as senhoras que conhecia. E não faltavam senhoras, a entrar e sair dos armarinhos, todas elegantemente vestidas, de uma formosura muito esmerada.

Passara o susto do rapaz, e agora ele avançava freqüentemente; como os outros, acotovelando, torcendo-se e desviando-se, parando para olhar quando o interesse era mais forte, mas já senhor de si no meio da multidão.

Absorvido no que via, não percebeu que o irmão tinha desaparecido. Quando o buscou com o olhar, e correu em torno, e não o achou, ficou aterrado. Então, sim, aquela multidão lhe pareceu terrível, capaz de afogar, consumir e devorar o irmãozinho, que ele com tanto cuidado trouxera desde o Recife, através de tantas dificuldades. Chamou em voz alta, indagou dos companheiros, que, atentos, se entretinham em ouvir o pai discorrer e conversar.

Mas o Dr. Caldas percebeu o que havia, e imediatamente tratou de achar o pequeno desviado. Mandou que os filhos e Carlos descessem a rua, até o princípio, e lá o esperassem, enquanto ele seguiria em sentido contrário.

Andou uns dez minutos e encontrou o pequeno, acolhido a um desvão de porta, chorando silenciosamente, rodeado de um grupo que já se interessava por ele.

Alfredo vira passar um velho, vendendo brinquedos, e instintivamente o seguira; quando buscou os companheiros, já não os viu.

Apesar deste incidente, a impressão que a rua do Ouvidor deixou no ânimo de Carlos foi das que nunca se dissipam.

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