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Através do Brasil (Advertência e explicação)
por Olavo Bilac e Manuel Bonfim


Compusemos este livro de leitura para o curso médio das Escolas Primárias do Brasil, a fim de ser ele o único livro destinado às classes desse curso; tal é, de fato, a indicação pedagógica aconselhada hoje: às primeiras classes do ensino primário não deve ser dado outro livro além do livro de leitura.

Acreditamos que o conjunto destas páginas – Através do Brasil – corresponde a essa exigência ou fórmula pedagógica.

Entretanto, este livro, é uma simples narrativa, acompanhada dos cenários e costumes mais distintivos da vida brasileira; e, em verdade, a Escola Primária deve ensinar muito mais do que aqui se contém, e muito mais do que se possa conter em qualquer livro de leitura. Quando a Pedagogia recomenda que as classes primárias elementares não tenham outro livro além do de leitura, não quer dizer com isso que nesse livro único se incluam todas as noções e conhecimentos que a criança deve adquirir. Fora absurdo e impossível. desde a primeira classe elementar, ha-de a criança aprender, além da leitura e da escrita, a gramática e a prática da língua vernácula, noções de geografia e história, cálculo, sistema dos pesos e medidas, lições de cousas – isto é: elementos de ciências físicas e naturais, e preceitos de higiene e instrução cívica. Como resumir tudo isso em um pequeno volume, em um simples livro de leitura, que deve ser acessível à inteligência infantil, e onde, por conseguinte, não será possível reduzir os ensinamentos e conhecimentos a simples fórmulas sintéticas e abstratas?

E’ um erro compor o livro de leitura – o livro único – segundo o molde das enciclopédias. Infelizmente, esse erro se tem repetido em diversas produções destinadas ao ensino e constituídas por verdadeiros amontoados didáticos, sem unidade e sem nexo, através de cujas páginas insípidas se desorienta e perde a inteligência da criança: regras de gramática misturadas com regras de bem viver e regras de aritmética, noções de geografia e apontamentos de zootecnia, descrições botânicas e quadros históricos, formando um todo disparatado, sem plano, sem pensamento diretor, que sirvam de harmonia e base geral para a universalidade dos conhecimentos que a Escola deve ministrar. Como fonte de conhecimentos, a verdadeira enciclopédia do aluno é o professor. E’ ele quem ensina, é ele quem principalmente deve levar a criança a aprender por si mesma, isto é: a Pôr em contribuição todas as suas energias e capacidades naturais, de modo a adquirir os conhecimentos mediante um esforço próprio.

Segundo este modo de entender o ensino, o nosso livro de leitura oferece bastantes motivos, ensejos, oportunidades, conveniências e assuntos, para que o professor possa dar todas as lições, sugerir todas as noções e desenvolver todos os exercícios escolares, para boa instrução intelectual de seus alunos do curso médio, de acordo com os programas atuais e com quaisquer outros que se organizem com a moderna orientação da Pedagogia.

Completaremos esta explicação mostrando como se podem tirar destas páginas ensejos e motivos para diversas lições.

Convém notar, porém, e lealmente o declaramos: se este livro de leitura fosse apenas o desenvolvimento de uma narrativa, oferecendo motivos para diferentes lições do programa, ele não preencheria devidamente os seus fins, e não chegaria a ser um bom livro de classe. Além de servir de oportunidade para que o professor possa realizar as suas lições, o livro de leitura deve conter em si mesmo uma grande lição. E acreditamos que isso se dá com o nosso trabalho. Estamos certos que a criança, com sua simples leitura, já lucrará alguma cousa: aprenderá a conhecer um pouco o Brasil; terá uma visão, há um tempo geral e concreta, da vida brasileira, - as suas gentes os seus costumes, as suas paisagens, os seus aspectos distintivos. e por isso escolhemos como cenário principal as terras do São Francisco, - o grande rio, essencialmente, unicamente brasileiro.

Também quisemos que este livro seja uma grande lição de energia, em grandes lances de afeto. Suscitar a coragem, harmonizar os esforços, e cultivar a bondade, - eis a fórmula da educação humana. os heróis principais destas simples aventuras, não os apresentamos, está claro, para que sejam imitados em tudo, mas para que sejam amados e admirados no que representam de generoso e nobre os estímulos que os impeliram, nos diversos transes por que passaram. Não se pode influir eficazmente, sobre o espírito da criança e captar-lhe a atenção, sem lhe falar ao sentimento. Foi por isso que demos ao nosso livro um caráter episódico, um tom dramático – para despertar o interesse do aluno e conquistar-lhe o coração. A Vida é ação, é movimento, é drama. Não devíamos apresentar o Brasil aos nossos pequenos leitores, mostrando-lhe aspectos imotos, apagados, mortos.

Preferimos destinar os primeiros capítulos do livro ao desenvolvimento dramático, deixando mais para o fim a sucessão dos cenários; sendo sempre a narração mais cativante para o espírito infantil, a atenção da criança começa desde logo a prender-se à leitura, e passa depois a aceitar facilmente as descrições, e a seguí-las com interesse; ao passo que, se começássemos amontoando as descrições, cansaríamos inutilmente o ânimo do pequeno leitor.

Justamente porque procuramos apenas um pretexto para apresentar a realidade, preferimos ilustrar este livro somente com fotografias; se ha nestas páginas alguma fantasia, ela serve unicamente para harmonizar numa visão geral os aspectos reais da vida brasileira.

Parece-nos ocioso mostrar como, a propósito da leitura de qualquer texto ou página deste livro, se pode dar qualquer lição de português, teórica ou prática. Imagine-se que se trata da primeira página, e que o professor quer ensinar as primeiras noções de morfologia: nada mais fácil do que, palavras variáveis, distinguindo-as das invariáveis: e a observação deste fato – que certas palavras variam de forma,e outras não – levará naturalmente o aluno a compreender que a razão de tais variações é a modificação da idéia correspondente. Desenvolvendo mais a lição, o mestre chegará a ensinar a classificação das palavras, de que a leitura lhe dá copiosos exemplos – substantivos, adjetivos, artigos, pronomes, verbos, advérbios, etc; e, como fecho, virão os exercícios de vocabulário.

Vejamos a lição de instrução moral. É mister começar o curso fazendo a criança observar a sua situação moral no seio da família, - os laços e deveres de afeto que ligam as pessoas de uma mesma família. Diz o livro de leitura na primeira página "era a primeira vez que se separava dos filhos depois da morte da mulher...” Aí o professor estudará com a criança as condições dessa família em particular, e as condições de “família” em geral; mostrará as duas acepções em que o termo é usado, - para significar o conjunto das pessoas que vivem na mesma casa, sob um mesmo teto e sob a direção moral de um chefe, - e o conjunto de todos os parentes; estudará os deveres recíprocos dos diversos membros de uma família – deveres nascidos de sentimentos naturais, tão intensos, que levam muitas vezes os indivíduos à prática de verdadeiros sacrifícios, como os que os pais fazem comumente pelos filhos – e como os que os dois pequenos heróis deste livro fazem por amor do pai.

Agora, uma lição de história. E preciso principiar explicando de um modo sensível as condições do Brasil antes da colonização. Fala por exemplo o livro de “sertão bruto, onde havia... índios..” E’ um excelente pretexto para dizer quem são esses índios, que antigamente aqui viviam sozinhos: os brancos e pretos vieram depois, e com eles veio a colonização. E então o professor apelará para a observação da criança, para que ela note a diferença entre o estado selvagem e as indústrias, instituições, obras e costumes que distinguem a civilização; mostrará que essas instituições e indústrias faltam ainda em grande parte a algumas terras do interior, onde a civilização ainda não penetrou. esta lição, desenvolvida de forma acessível à mentalidade do aluno, e apelando sempre para o seu próprio raciocínio e para a sua própria observação, ha-de levá-lo facilmente a fazer uma idéia do que era o Brasil selvagem.

Uma lição de geografia... A primeira lição do programa: terras e mares, acidentes geográficos. No segundo capítulo, o livro fala em mar: “o mar ficou lá trás...”, - ao passo que o trem avança para o interior do continente, entre montanhas, rios, etc. Aproveitando essas indicações, o professor ensinará que a superfície da terra compreende terras e mares: as linhas de encontro são as costas, baías, penínsulas, etc.; depois, é fácil indicar os outros acidentes geográficos: rios, vales, ilhas, lagos, etc.

Suponhamos agora que é preciso iniciar o ensino de “lições de cousas” – noções de cosmografia e de ciências físicas e naturais, o dia e a noite, estados dos corpos, seres vivos e seres inertes ou mortos... logo no primeiro capítulo do livro, está: “O sol nascera cercado de nuvens de fogo...” Essa frase será o pretexto para a primeira lição de cosmografia. A propósito das “baforadas de fumaça da máquina”, virá o estudo dos três estados dos corpos; e, aproveitando os “blocos de pedra”, os “campos” e os “bois”, de que trata o mesmo capítulo, o mestre levará a criança a reconhecer que todos os seres se distribuem em duas categorias, perfeitamente distintas: seres vivos e seres inertes.

Deste modo, sob a sugestão das mesmas páginas, todo o programa pode ser ensinado. Qual a vantagem? E’ que todo o ensino fica assim harmonizado, como irradiação ou desenvolvimento de uma só leitura; e essa leitura é bastante, a todo o momento, para evocar os conhecimentos adquiridos, que dessa forma se assimilam muito mais fácil e naturalmente.

Neste livro existem e entrelaçam-se, por meio de mútua sugestão, todas as noções que a criança pode e deve receber na Escola; e, ao mesmo tempo, a sua leitura, representa por si mesma uma visão geral do Brasil, um conhecimento concreto do meio no qual vive e se agita a criança; e deste modo se consegue isto, que é a grande aspiração do ensino primário: - que a Escola ensine a conhecer a natureza com a qual a criança está em contacto, e a vida que ela tem de viver e da qual já participa.

Juntamos ao volume um pequeno léxico, em que damos a significação de alguns termos empregados, dos menos familiares às crianças. Em geral, procuramos dar a estas páginas o tom singelo e a linguagem natural que mais convêm à inteligência infantil; é este um dever rigoroso em trabalho desta natureza; mas seria impossível evitar o emprego de uma ou outra palavra menos trivial. Nem tanto se exige dos livros didáticos; se, em suas leituras escolares, a criança somente encontrar palavras muito conhecidas, como poderá ela desenvolver o seu vocabulário? Nos livros de classe podem ser empregados termos menos usuais, contanto que estejam dispostos de modo a poder ser facilmente compreendidos com uma ligeira explicação. essa explicação certamente será sempre dada pelo professor competente e solícito; mas, como é possível que a criança seja tentada a ler o livro fora da classe, longe da vista e do auxílio do professor, o nosso pequeno léxico pode prestar-lhe bons serviços.



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