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A Meretriz
por Augusto dos Anjos

A rua dos destinos desgraçados

Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados

Da danação carnal... Lúbrica, à lua,

Na sodomia das mais negras bodas

Desarticula-se, em coréas doudas,

Uma mulher completamente nua!


É a meretriz que, de cabelos ruivos,

Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos

Na mesma esteira pública, recebe,

Entre farraparias e esplendores.

O eretismo das classes superiores

E o orgasmo bastardíssimo da plebe!


É ela que, aliando, à luz do olhar protervo,

O indumento vilíssimo do servo

Ao brilho da augustal toga pretexta,

Sente, alta noite, em contorções sombrias,

Na vacuidade das entranhas frias

O esgotamento intrínseco da besta!


E ela que, hirta, a arquivar credos desfeitos,

Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,

Reduzidos, por fim, a âmbulas moles,

Sofre em cada molécula a angústia alta

De haver secado, como o estepe, à falta

Da água criadora que alimenta as proles!


É ela que, arremessada sobre o rude

'Despenhadeiro da decrepitude,

Na vizinhança aziaga dos ossuários

Representa, através os meus sentidos,

A escuridão dos gineceus falidos

E a desgraça de todos os ovários!


Irrita-se-lhe a carne á meia-noite.

Espicaça-a a ignomínia, excita-a o açoite

Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.


E a mulher, funcionária dos instintos,

Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos,

Gane instintivamente de luxúria!


Navio para o qual todos os portos

Estão fechados, urna de ovos mortos,

Chão de onde unia só planta não rebenta,

Ei-la, de bruços, bêbeda de gozo

Saciando o geotropismo pavoroso

De unir o corpo à terra famulenta!


Nesse espolinhamento repugnante

O esqueleto irritado da bacante

Estrala... Lembra o ruído harto azorrague

A vergastar ásperos dorsos grossos.

E é aterradora essa alegria de ossos

Pedindo ao sensualismo que os esmague!


É o pseudo-regozijo dos eunucos

Por natureza, dos que são caducos

Desde que a Mâe-Comum lhes deu início...

E a dor profunda da incapacidade

Que, pela própria hereditariedade

A lei da seleção disfarça em Vício!


É o júbilo aparente da alma quase

A eclipsar-se, no horror da ocídua fase

Esterilizadora de órgãos... É o hino

Da matéria incapaz, filha do inferno,

Pagando com volúpia o crime eterno

De não ter sido fiel ao seu destino!


E o Desespero que se faz bramido

De anelo animalíssimo incontido,

Mais que a vaga incoercível na água oceânea...

E a Carne que, já morta essencialmente,

Para a Finalidade Transcendente

Gera o prodígio anímico da Insânia!


Nas frias antecâmaras do Nada

O fantasma da fêmea castigada,

Passa agora ao clarão da lua acesa

E é seu corpo expiatório, alvo e desnudo

A síntese eucarística de tudo

Que não se realizou na Natureza!


Antigamente, aos tácitos apelos

Das suas carnes e dos seus cabelos,

Na óptica abreviatura de um reflexo,

Fulgia, em cada humana nebulosa,

Toda a sensualidade tempestuosa

Dos apetites bárbaros do Sexo!


O atavismo das raças sibaritas,

Criando concupiscências infinitas

Como eviterno lobo insatisfeito;

Na homofagia hedionda que o consome,

Vinha saciar a milenária fome

Dentro das abundâncias do seu leito!


Toda a libidinagem dos mormaços

Americanos fluía-lhe dos braços,

Irradiava-se-lhe, hírcica, das veias

E em torrencialidades quentes e úmidas,

Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas

Lembrava um transbordar de ânforas cheias.


A hora da morte acende-lhe o intelecto

E à úmida habitação do vício abjecto

Afluem milhões de sóis, rubros, radiando...

Resíduos memoriais tornam-se luzes

Fazem-se idéias e ela vê as cruzes

Do seu martirológio miserando!


Inícios atrofiados de ética, ânsia

De perfeição, sonhos de culminância,

Libertos da ancestral modorra calma,

Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,

Lançando a sombra horrível dos seus vultos

Sobre a noite fechada daquela alma!


É o sublevantamento coletivo

De um mundo inteiro que aparece vivo,

Numa cenografia de diorama,

Que, momentaneamente luz fecunda,

Brilha na prostituta moribunda

Como a fosforescência sobre a lama!


É a visita alarmante do que outrora

Na abundância prospérrima da aurora,

Pudera progredir, talvez, decerto,

Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,

Ficou rolando, como aborto inútil,

Como o ....... do deserto!


Vede! A prostituição ofídia aziaga

Cujo tóxico instila a infâmia, e a estraga

Na delinqüência ....... impune,

Agarrou-se-lhe aos seios impudicos

Como o abraço mortífero do Ficus

Sugando a seiva da árvore a que se une!

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Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto,

Mordeu-lhe a boca e o rosto...

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Ser meretriz depois do túmulo! A alma

Roubada a hirta quietude da urbe calma

Onde se extinguem todos os escolhos:

E, condenada, ao trágico ditame,

Oferecer-se à bicharia infame

Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!


Sentir a língua aluir-se-lhe na boca

E com a cabeça sem cabelos, oca...

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Na horrorosa avulsão da forma nívea

Dizer ainda palavras de lascívia...

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(Outras Poesias, 11)

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