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345
por Artur de Azevedo
Publicado originalmente em Correio da Manhã, na edição de 16 de outubro de 1904

— És o rei dos caiporas, e, além disso, não tens a menor parcela de bom senso! Não fosse eu tua mulher, e não sei o que seria de ti, porque decididamente não te sabes governar!

— Exageras, nhanhã!

— Não! não sabes! Tens deixado estupidamente um rol de vezes passar a fortuna perto de ti, sem a agarrar pelos cabelos! Dizem que ela é cega: cego és tu!

— Já vês que a culpa não é minha...

— Quando houve o Encilhamento, só tu não te arranjaste!

— Mas também não me desarranjei...

— Para seres promovido a 1o oficial da tua Repartição, foi preciso que eu saísse dos meus cuidados e procurasse o ministro.

— Fizeste mal.

— Se o não fizesse, não passarias da cepa torta!

— Não quero obscurecer o mérito da tua diligência, mas olha que estás enganada, nhanhã.

— Deveras?

— Redondamente enganada. A nomeação era minha. Quando fui agradecê-la ao ministro, este disse-me: "Não era preciso que sua senhora se incomodasse: o decreto estava lavrado."

— Pois sim! isso disse ele... E quando o decreto estivesse, efetivamente, lavrado? Á última hora seriam capazes de substitui-lo por outro! Pois se és tão caipora!

— Perdoa, nhanhã, mas não sou tão caipora assim... Pelo menos tive uma grande felicidade na vida!

— Qual foi, não me dirás?

— A de ter casado contigo...

Nhanhã mordeu os lábios, porque não achou o que responder, e naquele dia as suas impertinências habituais não foram mais longe.

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O pobre Reginaldo — assim se chamava o marido — habituara-se de muito àquelas recriminações insensatas, e era um quase fenômeno de resignação e paciência.

Ela bem sabia que a coisa seria outra, se realmente a fortuna se deixasse agarrar pelos cabelos: o que nhanhã não lhe perdoava era a sua pobreza, — não era o seu caiporismo. Ela não podia ter em casa do marido o mesmo luxo que tinha em casa do pai; não podia rivalizar com alguma amiga em ostentação: era isto, só isto que a afligia, ou antes, que os afligia a ambos, marido e mulher.

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Reginaldo tinha aversão ao jogo; nem mesmo a loteria o tentava.

Entretanto, uma tarde meteu-se num bonde do Catete, para recolher-se à casa, e no Largo do Machado, onde se apeou, pois morava naquelas imediações, foi perseguido por um garoto que à viva força lhe queria impingir um bilhete de loteria, — uma grande loteria de cem contos de réis, cuja extração estava anunciada para o dia seguinte.

Reginaldo resistiu, caminhando apressado sem dar resposta ao garoto, que o acompanhava insistindo; mas de repente lhe acudiu a idéia de que aquele maltrapilho poderia ser a fortuna disfarçada. Era preciso agarrá-la pelos cabelos! Comprou o bilhete, e foi para casa, onde o esperavam os tristes feijões quotidianos.

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Ele bem sabia que, se dissesse a nhanhã que havia feito essa despesa extra-orçamentária, não teria a sua aprovação; mas que querem, — o pobre rapaz era um desses maridos submissos, que não ficam em paz com a consciência quando não contam por miúdo às caras-metades tudo quanto lhes sucede.

Ao saber da compra do bilhete, nhanhã pôs as mãos na cabeça:

— Quando eu digo que tu não tens a menor parcela de bom senso...! Aí está! Dez mil-réis deitados fora, e tanta coisa falta nesta casa!...

E seguiu-se, durante meia hora, a relação dos objetos que poderiam ser comprados com aqueles dez mil-réis perdidos.

Depois disso, nhanhã pediu para ver o bilhete.

Reginaldo, sem proferir uma palavra, tirou-o do bolso e entregou-lho.

— Número 345! exclamou ela. Um número tão baixo numa loteria de cinqüenta mil números! Isto é o que se chama vontade de gastar dinheiro à toa! Algum dia viste, nessas grandes loterias, ser premiado um número de três algarismos?

Reginaldo confessou que nem sequer olhara para o número. Como o garoto se lhe afigurou a fortuna disfarçada, ele aceitou o bilhete que lhe fora oferecido, entendendo que não devia argumentar com a fortuna.

— 345! Pois isto é lá número que se compre!

— Agora não há remédio.

— Como não há remédio? Põe o chapéu e volta imediatamente ao Largo do Machado: o garoto ainda lá deve estar. Dá-lhe o bilhete e ele que te dê o dinheiro.

— Perdoa, nhanhã, mas isso não faço eu: comprei! Nem o garoto desfazia a compra!

— Ao menos vai trocar o bilhete por outro, que tenha, pelo menos, quatro algarismos! Se tiver cinco, melhor!

— Faço-te a vontade: mas olha que sempre ouvi dizer que bilhetes de loteria não se trocam...

— Faze o que eu disse e não resmungues! Tu és o rei dos caiporas e eu tenho muita sorte!

Reginaldo não disse mais nada: pôs o chapéu, saiu de casa, foi ao Largo do Machado, e voltou com outro bilhete.

Desta vez o número tinha cinco algarismos: 38788; nhanhã devia ficar satisfeita.

Não ficou:

— Devias escolher um número mais variado: o 8 fica aqui três vezes.. — Mas, enfim, 38788 sempre inspira mais confiança que 345...

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Pois, senhores, no dia seguinte o n.0 38788 saiu branco, e o n.0 345 foi premiado com a sorte grande.

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Imagine-se o desespero de nhanhã:

— Então, eu não digo que és o rei dos caiporas?

— Perdoa, nhanhã, mas desta vez não fui o rei: tu é que foste a rainha...

— Cala-te! Se não fosses um songamonga, não me terias feito a vontade! Ter-me-ias roncado grosso!

— Ora essa!

— Um marido não se deve deixar dominar assim pela mulher!

— Olha que eu pego na palavra...

— Trocar um bilhete de loteria! Que absurdo!...

— Absurdo aconselhado por ti...

— Mas tu já não estás em idade de receber conselhos!

— Bom; de hoje em diante baterei com o pé e roncarei grosso todas as vezes que me contrariares! Esta casa vai cheirar a homem!...

A boas horas vêm esses protestos de energia!

E exclamando com os punhos cerrados e os olhos voltados para o teto: "Cem contos de réis"!, nhanhã deixou-se cair sentada numa cadeira, e desatou a chorar.

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Mal que a viu naquele estado aflitivo, Reginaldo correu para junto dela, e disse-lhe com muito carinho:

— Sossega. Eu fiz uma coisa... mas vê lá! não ralhes comigo...

— Que foi?

— Não troquei o bilhete!

Não trocaste o bilhete? gritou nhanhã erguendo-se de um salto, com os olhos muito abertos.

— Não! pois eu fazia lá essa asneira! Seria deixar fugir a fortuna, depois de a ter agarrado pelos cabelos!

— Compraste então o outro bilhete?

— Comprei...

— Nesse caso... estamos ricos?

— Temos cem contos.

— Ora, graças que um dia fizeste alguma coisa com jeito!

— Qual! eu continuo a ser o rei dos caiporas.

— Não digas isso!

— Digo, porque se o não fosse, o número 38788 teria apanhado a sorte imediata...

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